Projetos de cinema vivem um paradoxo curioso: a mesma indústria que move bilhões também coleciona ideias engavetadas. Entre roteiros fenomenais e cronogramas impossíveis, muitos longas são anunciados com pompa e depois somem sem deixar rastros.
No universo geek, nada dói tanto quanto ver filmes de ficção científica cancelados. A seguir, relembramos três produções que tinham tudo para conquistar as telonas — e que continuam na lista de desejos de qualquer fã.
A era das adaptações YA e o fim abrupto de Ascendant
No início dos anos 2010, sagas literárias distópicas dominaram o box office. Divergente chegou em 2014 com boas bilheterias, abrindo caminho para Insurgente (2015) e Allegiant (2016). O plano era dividir o último livro de Veronica Roth em duas partes, mas Allegiant tropeçou nas receitas.
O resultado? Ascendant, filme que encerraria a trama de Tris e Quatro, foi suspenso. A Lionsgate até cogitou transformar o roteiro em telefilme para o canal Starz, ideia que também desmoronou. Sem o desfecho cinematográfico, o público teve de recorrer aos romances para descobrir o destino das facções.
O Duna psicodélico que nunca saiu do papel
Em 1974, o cineasta chileno Alejandro Jodorowsky sonhou alto ao assumir Dune. A produção reuniria o design biomecânico de H. R. Giger, storyboards de Moebius, efeitos de Dan O’Bannon e trilha sonora dividida entre Pink Floyd e Magma. Para completar, Orson Welles, Mick Jagger e Salvador Dalí estariam em cena.
Os custos da pré-produção dispararam e os financiadores recuaram. O projeto naufragou antes mesmo das filmagens, deixando apenas artes conceituais — algumas influenciaram Star Wars, franquia que, décadas depois, continua revelando novas duplas Jedi. Ainda que Denis Villeneuve tenha finalmente adaptado o romance de Frank Herbert com sucesso, a curiosidade sobre o épico psicodélico de Jodorowsky persiste.
Alien 5: o retorno de Ripley que ficou só no concept art
Neill Blomkamp, diretor de Distrito 9, anunciou em 2015 uma proposta ousada: Alien 5 ignoraria os eventos de Alien 3 e Alien: A Ressurreição, retomando a narrativa logo após Aliens – O Resgate. O roteiro mostraria Ripley e Hicks mais velhos, 30 anos depois de LV-426.
Imagem: Nicole Drum
O entusiasmo dos fãs foi imediato, mas a Fox priorizou os prelúdios comandados por Ridley Scott — Prometheus (2012) e Alien: Covenant (2017). Covenant não alcançou o desempenho projetado e Alien 5 desapareceu do cronograma. Sete anos depois, Alien: Romulus assumiu o posto de novo capítulo, mas o misto de nostalgia e curiosidade sobre a visão de Blomkamp permanece.
Por que Hollywood mata projetos tão promissores?
O cancelamento de filmes de ficção científica envolve fatores como orçamento crescente, mudanças de administração nos estúdios e receio de risco. Quando um título derrapa na bilheteria, executivos recuam em sequência. O caso de Ascendant ilustra bem: Allegiant não entregou o lucro previsto, e todo o universo distópico foi arquivado.
No cenário de Jodorowsky, o problema foi o investimento inicial excessivo. Já Alien 5 sucumbiu à disputa interna de prioridades. Numa indústria movida pelo retorno rápido, o timing costuma ser tão decisivo quanto a qualidade criativa. Ainda assim, projetos abandonados seguem alimentando o imaginário geek e inspirando rumores — basta ver como, no jogo de vozes do entretenimento, James Woods reacendeu boatos sobre Hades com uma simples postagem.
Vale a pena lamentar?
Embora novos títulos continuem chegando aos cinemas e ao streaming, a memória desses filmes de ficção científica cancelados ainda provoca aquela sensação agridoce. Entre roteiros perdidos e artes conceituais vazadas, o público segue imaginando o que poderia ter sido — e mantendo viva a chama da criatividade que move Hollywood e, claro, o time do HeroesBrasil.
